
Raízes do Raposo: Salvaguarda da Memória, da Oralidade e do Território Quilombola
Compartilhar
A Associação de Agricultores Familiares e Moradores Remanescentes de Quilombo do Raposo – AQUIR, localizada na Comunidade Quilombola do Raposo, município de Araçás–BA, representa a principal organização comunitária responsável pela articulação social, cultural, produtiva e institucional do território
Constituída pelos moradores da comunidade, a associação desempenha papel estratégico na defesa dos direitos coletivos, na valorização da agricultura familiar, na preservação das tradições quilombolas e na construção de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da identidade local.
É nesse contexto que se inicia a parceria institucional entre a PIMM Produção e Eventos – Ponto de Cultura certificado pelo Ministério da Cultura (Política Nacional de Cultura Viva – ID nº 1637639) e a AQUIR, estabelecendo uma agenda permanente de valorização da memória, da cultura popular e da salvaguarda dos saberes ancestrais existentes no território.
Como marco inicial dessa cooperação, durante a programação do Julho das Pretas, será desenvolvido o processo de salvaguarda da Mestra Petronilha, mulher quilombola de 85 anos, reconhecida por sua extraordinária contribuição à comunidade e ao município de Araçás. Parteira tradicional, estima-se que tenha auxiliado no nascimento de mais de quatrocentas crianças, sem registro de perda materna ou neonatal em sua atuação. Sua trajetória também é marcada pelo exercício da benzeção, da condução de novenas, dos tradicionais carurus comunitários, da medicina popular, da produção rural e da transmissão oral de conhecimentos que atravessam gerações.

A Mestra Petronilha constitui um patrimônio humano vivo, cuja história representa a síntese da resistência, da solidariedade comunitária, da fé, da ancestralidade e da construção coletiva da vida no campo. Sua experiência traduz um conjunto de conhecimentos que extrapola a dimensão religiosa ou cultural, alcançando áreas como saúde comunitária, organização social, agricultura familiar, educação popular e fortalecimento da identidade quilombola.
O processo de salvaguarda será ampliado para outras mulheres guardiãs da memória local, promovendo uma grande Roda de Conversa entre Mestras, Griôs e Lideranças Quilombolas, destinada ao registro da oralidade, dos modos de fazer, das práticas tradicionais e das narrativas que constituem a identidade histórica da Comunidade Quilombola do Raposo.

Paralelamente, reconhece-se a relevância do espaço comunitário administrado pela AQUIR, especialmente o campo de futebol, como um equipamento social de uso permanente pela população. Muito além da prática esportiva, trata-se de um ambiente de convivência comunitária utilizado diariamente por crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos para atividades físicas, caminhadas, jogos recreativos, encontros comunitários, reuniões da associação, celebrações culturais, ações educativas e eventos tradicionais da comunidade.
Esse espaço se tornou um verdadeiro patrimônio coletivo de convivência, promovendo saúde, integração social, fortalecimento dos vínculos comunitários e prevenção de diversas vulnerabilidades sociais. Sua utilização cotidiana contribui diretamente para a promoção da qualidade de vida, para o combate ao sedentarismo e às doenças crônicas não transmissíveis, além de oferecer alternativas saudáveis de lazer, cultura e esporte, especialmente para crianças e jovens, fortalecendo o sentimento de pertencimento ao território.

Considerando sua importância estratégica para a vida comunitária, registra-se a necessidade de articulação institucional visando à ampliação, qualificação e estruturação desse equipamento público-comunitário, permitindo que o espaço atenda de forma ainda mais eficiente às demandas de esporte, lazer, cultura, educação, promoção da saúde e fortalecimento da agricultura familiar.

A parceria entre a AQUIR e a PIMM Produção e Eventos inaugura, assim, um novo ciclo de valorização do patrimônio cultural imaterial da Comunidade Quilombola do Raposo, consolidando ações de documentação, reconhecimento e salvaguarda das mestras e mestres da oralidade, ao mesmo tempo em que fortalece o território como referência de identidade, memória, desenvolvimento comunitário e resistência quilombola para as presentes e futuras gerações.

Um comentário
Deixe um comentário












Conhecer nossa história nos liberta, nos dá empoderamento: a identidade, o pertencimento, o respeito sendo o caminho para nós estarmos novamente aquilombando para sermos quem realmente somos através da visão da afrocentricidade.