Sidarta Ribeiro realiza atividade no posto de saúde e aponta alternativas às políticas atuais de acesso à cannabis medicinal.
Sidarta Ribeiro realiza atividade no posto de saúde e aponta alternativas às políticas atuais de acesso à cannabis medicinal.
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Em uma manhã de quinta-feira, parte do povoado de Caeté Açu se reuniu no salão Marilza Nery, anexo ao espaço de atendimento, para uma roda de conversa com o renomado Neurocientista e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Autor de diversos livros sobre o cérebro, sonhos e a temática da cannabis medicinal, a atividade gratuita e aberta à comunidade foi promovida pela Escola das Artes do Nascer, com apoio do Coletivo de Estudos da Cannabis Medicinal do Vale do Capão e de alguns empreendimentos do comércio local.

O público presente era formado por moradores e visitantes de todas as idades, reunidos pela oportunidade de trocar experiências com um estudioso sobre os impactos da aplicação da cannabis para diferentes quadros clínicos, como Alzheimer, Esquizofrenia, TDAH, Autismo e Epilepsia. Apesar de lembrar aos presentes a todo momento que não era médico e que questões mais práticas sobre cada caso precisavam de acompanhamento de um profissional de saúde.
Sidarta trouxe diversos relatos de casos e pesquisas científicas que evidenciam os impactos na aplicação das corretas dosagens de CBD e THC no tratamento destes distúrbios, bem como aproveitou o momento para debater questões sociais e econômicas relacionadas aos avanços na indicação de terapias medicinais relacionadas ao uso da maconha. Dentre estes pontos, está o interesse das grandes corporações em monopolizar a produção e comercialização, mantendo preços caros, como atualmente são os produtos importados, e restringindo os pequenos produtores e a população atualmente marginalizada por porte e comércio de pequenas quantidades e que, segundo as estatísticas, representam boa parte da população encarcerada nos presídios brasileiros.

Outro ponto muito debatido na conversa foi sobre os impactos do uso de cannabis na adolescência e os riscos que isso acarreta para um cérebro em formação. Sidarta reforçou que estudos indicam que na infância e juventude o uso de cannabis pode gerar impactos negativos como apatia, e isso é agravado na geração atual devido ao uso massivo de telas, que também podem ser gatilhos para o desenvolvimento de outros distúrbios como ansiedade e depressão. Segundo mencionou, pesquisas em camundongos indicam que a mesma dose aplicada a um espécime adolescente pode causar um efeito negativo, enquanto aplicada a um adulto ou idoso causaria um efeito benéfico.
Segundo Ribeiro, enquanto para os adolescentes a cannabis deve seguir proibida e somente receitada em casos clínicos com supervisão, para idosos ela deveria ser recomendada e personalizada de acordo com as necessidades de cada pessoa. Isso seria possível com a descriminalização e a democratização do acesso, garantindo preços acessíveis e produtores locais que teriam suas próprias produções com diferentes qualidades e características, semelhante à produção de cervejas artesanais, como exemplificou o palestrante.

Um destaque importante da conversa é a importância de não apenas celebrar os avanços no uso medicinal da Cannabis, mas aproveitar o momento de debate político para reforçar a luta pela descriminalização e democratização do acesso para o uso recreativo e ritualístico, a fim de reduzir a prisão em massa do povo preto e periférico, que é majoritariamente penalizado pelas leis vigentes no país. Sidarta lembrou que a mesma polícia que faz vista grossa para o consumo de entorpecentes em grandes festivais frequentados pela elite, invade as comunidades e prende quem está consumindo as mesmas substâncias. E as chacinas recorrentes nas favelas no Rio de Janeiro não mudam o controle e a operação do tráfico de drogas; apenas são mortos os trabalhadores que estão na ponta, sem ameaça a quem está no topo das organizações.
“O momento é de não retroceder nem para tomar impulso, afirmou Sidarta, precisamos pautar a importância da cannabis na medicina, o potencial do cânhamo e outros derivados da planta para a economia local e pensar em políticas de reintegração de quem foi marginalizado durante anos por uma proibição que somente promoveu a segregação e a desigualdade social ao longo das últimas décadas.
Com o sentimento de muita gratidão pela partilha e ainda absorvendo nos neurônios a riqueza das informações trocadas na conversa que se estendeu para além do tempo previsto, o público presente ainda ganhou uma sessão informal de fotos e autógrafos dos diferentes livros publicados pelo pesquisador. Ao lado de sua companheira Luiza Ugarte, que está grávida, planejam que o parto natural seja realizado em breve na Chapada Diamantina. Sidarta prometeu retornar em um momento próximo para novos momentos de conversas e trocas com a comunidade do Capão.
Texto, Vídeo e Fotos: Pedro Jatobá – Produtora Colaborativa da Chapada
Vale do Capão, Julho de 2026, publicado em: https://valedocapao.chapada.ba
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